Há uma expectativa silenciosa de que compreender suficientemente quem somos nos permitirá encontrar também a “medida certa” do que fazer para viver.
Podemos saber o que suportamos, o que não toleramos, de quem gostamos, como amamos, o que faríamos e, principalmente, o que jamais faríamos. Temos provas. Anos delas.
Aos poucos, o passado deixa de ser apenas aquilo que aconteceu. Torna-se argumento.
Eu nunca fui assim.
Sempre fiz desse jeito.
Isso não combina comigo.
Depois de tudo o que vivi…
Uma pessoa como eu não faria isso.
Eis a estranha fidelidade: permanecer reconhecível para si mesmo.
Mas a vida não continua apenas confirmando aquilo que já sabemos sobre ela.
Alguma coisa pode acontecer sem nos tornar outra pessoa e, no entanto, alterar a relação com aquilo que sempre dissemos ser.
O passado pode testemunhar.
Mas ele não decide.
Ainda assim, insistimos em interrogá-lo. Procuramos nele alguma coisa que autorize o próximo passo, como se viver exigisse manter uma espécie de coerência retroativa: o que farei amanhã deveria poder ser justificado por aquilo que fui até ontem.
Não falta necessariamente saber.
Falta precedente.
E diante do que não tem precedente, “eu me conheço” já não resolve tanto quanto prometia.
As palavras com que aprendemos a dizer quem somos não servem apenas para nos reconhecer. Elas delimitam o campo no qual continuamos reconhecíveis.
Filho.
Mãe.
Homem.
Solteira.
Forte.
Responsável.
Difícil.
Corajosa.
Aquele que fica.
Aquela que nunca volta.
Um nome pode abrigar uma vida.
E pode também começar a se impor.
A pergunta “quem sou?” contém uma exigência impossível, não porque não haja respostas. Há inúmeras, mas nenhuma encerra a pergunta. Ainda assim, esperamos que alguma delas possa nos autorizar.
Há um ponto em que nenhuma biografia consegue fornecer garantia suficiente.
Quanto do que chamamos de descobrir quem somos não seria também uma tentativa de não contradizer quem reconhecemos ser?