A autoaversão pode ser facilmente confundida com uma avaliação negativa de si. Como se alguém observasse as próprias insuficiências, chegasse a uma conclusão desfavorável e passasse, então, a rejeitar aquilo que é.

Mas há situações em que a ordem parece ser outra. A certeza de inadequação já estava ali antes daquilo que viria a justificá-la.

Uma escolha ainda não foi feita e o fracasso já parece provável. Uma possibilidade se apresenta e alguma coisa rapidamente a torna imprópria, excessiva ou inalcançável. Quando algo dá errado, o acontecimento não permanece circunscrito ao que aconteceu: adquire o valor de confirmação.

A falha não é apenas descoberta. Ela encontra uma convicção que a precedia.

Isso permite pensar a autoaversão para além da ideia de baixa autoestima. A maneira como alguém se vê não se constitui de forma autônoma. Somos precedidos por palavras, expectativas, imagens e ideais a partir dos quais aprendemos também a nos reconhecer. Muito do que há de mais íntimo em nossa relação conosco traz, portanto, as marcas do Outro.

O que veio de fora, entretanto, não permanece simplesmente exterior. Pode tornar-se tão familiar que passa a ser vivido como evidência: eu sou assim. É nesse ponto que certas exigências deixam de ser percebidas como exigências e adquirem a aparência de uma verdade sobre si.

Por isso, a crítica dirigida a si mesmo nem sempre funciona como uma tentativa de correção. Em alguns casos, ela participa da própria organização do impasse. O sujeito se acusa, procura corrigir aquilo que considera defeituoso, estabelece novos ideais e tenta finalmente tornar-se alguém com quem possa estar em paz. No entanto, cada novo esforço pode recolocá-lo diante da mesma medida que já o condenava.

Há aí uma dimensão superegoica que merece ser distinguida da simples consciência moral. O supereu não apenas proíbe. Ele pode exigir incessantemente, fazendo com que nenhuma realização seja suficiente para encerrar a dívida. Quanto mais alguém procura corresponder ao ideal que deveria finalmente autorizá-lo, mais pode encontrar razões para permanecer aquém dele.

Nesse sentido, a tentativa de superar a autoaversão pela construção de uma imagem mais positiva de si encontra um limite. Se o problema estivesse apenas no conteúdo da imagem, pensar-se feio em vez de bonito, incapaz em vez de capaz, insuficiente em vez de suficiente, talvez bastasse substituí-la. Mas a questão pode estar justamente na submissão a uma medida diante da qual é preciso, repetidamente, demonstrar o próprio valor.

Isso não significa que toda autoaversão obedeça à mesma lógica, nem que seja possível determinar de antemão aquilo que ela representa para alguém. O mesmo modo de se depreciar pode ocupar lugares muito diferentes em histórias diferentes. É somente naquilo que cada sujeito diz, repete e produz em sua própria fala que essa função pode começar a ser localizada.

Uma análise introduz uma diferença justamente aí. Em vez de tomar como evidente a pergunta “o que há de errado comigo?”, pode-se começar a interrogar a certeza que tornou essa pergunta tão convincente.

Não para descobrir, por trás dela, uma versão verdadeira e finalmente reconciliada de si. Talvez seja mais decisivo poder reconhecer de que palavras, ideais e exigências foi feita uma verdade que, durante muito tempo, pareceu não admitir pergunta.

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