Há sempre alguma distância entre o que somos e aquilo que imaginamos que deveríamos ser. Às vezes, essa distância organiza uma vida inteira.
É preciso alcançar mais, saber mais, produzir mais. Ser suficientemente interessante, desejável, reconhecido. Corrigir alguma coisa no corpo, na carreira, nas relações, em si mesmo.
O curioso é que chegar raramente encerra o movimento. Aquilo que durante muito tempo pareceu capaz de finalmente produzir satisfação perde força pouco depois de ser alcançado. Uma conquista se transforma em parâmetro, o reconhecimento recebido exige outro, a imagem perseguida se desloca um pouco mais adiante.
O ideal pode permanecer intacto justamente porque nunca coincide inteiramente com aquilo que se alcança.
Não inventamos sozinhos aquilo que aprendemos a desejar de nós mesmos. Antes mesmo que pudéssemos nos reconhecer em uma imagem, já havia palavras, expectativas, olhares. Já ocupávamos lugares no desejo daqueles que nos receberam. Algumas dessas marcas desaparecem da memória; outras permanecem sem que sejam reconhecidas como tais.
Uma exigência pode, então, parecer absolutamente própria. É preciso ser excepcional, não falhar, dar conta, corresponder. Em algum momento, já não importa tanto de onde veio essa medida. A voz tornou-se íntima.
Freud deu ao ideal um lugar importante na constituição psíquica. Não apenas como aquilo a que se aspira, mas como uma referência a partir da qual alguém também se mede.
É possível receber reconhecimento e, ainda assim, permanecer aquém da medida que se impõe. Alcançar aquilo que se desejava e encontrar, quase imediatamente, uma nova falta. Não necessariamente porque a realização tenha sido insuficiente, mas porque alguma coisa parece ser esperada daquela conquista para além da própria conquista.
Muda aquilo que se busca. A exigência encontra novas formas de permanecer.
As redes sociais ofereceram a esse movimento uma superfície quase infinita. Corpos, carreiras, viagens, relações, casas, juventudes, sucessos: há sempre uma imagem disponível de uma vida que poderia estar sendo vivida.
Seria simples demais, porém, localizar aí a origem do problema. As mesmas imagens não atingem todos da mesma maneira. Algumas passam diante dos olhos e desaparecem; outras encontram um ponto preciso e produzem comparação, insuficiência, urgência. O olhar do outro não começa na tela. A tela apenas multiplica suas possibilidades.
Há algo ainda menos evidente: abandonar um ideal não significa necessariamente abandonar a medida que o sustentava.
A exigência de sucesso pode dar lugar à exigência de equilíbrio. A necessidade de ser admirado pode transformar-se na necessidade de não precisar da admiração de ninguém. A busca pela perfeição pode ceder lugar à obrigação de ser autêntico.
Até mesmo a tentativa de se libertar dos ideais pode conservar a estrutura de uma exigência.
É possível conhecer a própria história, reconhecer expectativas antigas, localizar repetições, compreender o sofrimento que determinadas exigências produzem e continuar respondendo a elas.
A compreensão, nesse ponto, encontra um limite. Não porque seja falsa, mas porque aquilo que se sabe sobre si nem sempre modifica a posição a partir da qual se vive.
Há medidas das quais alguém deseja se libertar sem perceber o quanto ainda precisa delas.