A bolha que chamamos de realidade

A realidade tem uma propriedade curiosa: quase sempre consegue nos dar razão.

Quem espera ser abandonado conhece bem as partidas. Quem aprendeu que confiar custa caro não terá dificuldade em reunir provas de que estava certo. Quem passou a vida sustentando tudo ao redor dificilmente terá problemas para demonstrar que, se não fizer, ninguém fará.

Os fatos estão lá. O abandono aconteceu, a ausência existiu, o outro fez o que fez. Seria simples se pudéssemos separar, de um lado, uma realidade objetiva e, de outro, aquilo que acrescentamos a ela. Mas não chegamos aos acontecimentos de um lugar neutro.

Quando alguma coisa nos acontece, já existe uma história a partir da qual ela poderá adquirir sentido. Fomos falados antes de falar, recebemos lugares antes de poder interrogá-los e, muito cedo, alguma coisa da relação com o outro nos colocou diante de uma pergunta para a qual não há resposta definitiva: o que o Outro quer de mim?

Não atravessamos tudo isso para depois entrar no mundo. Entramos nele através disso.

É nesse sentido que podemos falar em uma bolha. Não como uma parede que nos separa do mundo, mas como uma trama na qual algumas coisas adquirem uma evidência particular.

O que encontramos não é falso por ter sido atravessado por nossa história; tampouco nossa história é uma lente que simplesmente deforma uma realidade que existiria, para nós, em estado puro. A questão é mais incômoda: aquilo que reconhecemos no que nos acontece não está separado da posição que ocupamos diante do outro, e a partir da qual desejamos e sofremos.

Por isso há uma diferença pequena e brutal entre dizer “foi assim” e dizer “é assim”. Na passagem de uma frase à outra, algo que aconteceu adquiriu força de lei. 

O passado deixa de ser apenas aquilo que ficou para trás e passa a oferecer coordenadas para o que ainda não aconteceu. Não porque o futuro esteja determinado, mas porque chegamos aos novos encontros acompanhados por um saber anterior sobre o que esperar deles e sobre quem somos quando estamos neles.

É assim que a realidade pode voltar a nos dar razão.

Outra pessoa vai embora, outro vínculo fracassa, mais uma vez foi preciso dar conta sozinho. “Eu sabia” não exprime apenas a constatação de que algo se repetiu. Existe também, nessa frase, o alívio inquietante de ainda reconhecer o mundo.

Há coisas que não permanecem porque ainda não foram compreendidas. Permanecem apesar de terem sido compreendidas.

O que se repete não precisa retornar sob a mesma forma. Mudam as pessoas, as circunstâncias, os objetos e até as razões que somos capazes de oferecer para aquilo que fazemos. E, ainda assim, algo insiste.

É nesse ponto que algumas formas de sofrimento revelam uma função que a compreensão, sozinha, não desfaz: elas não apenas doem. Elas também organizam.

“Comigo é sempre assim” é uma frase particularmente precisa. O “sempre” reúne acontecimentos diferentes sob uma mesma lógica; o “comigo” preserva alguém capaz de se reconhecer dentro dela. O sofrimento conhecido possui uma vantagem terrível sobre aquilo que ainda não sabemos viver: ele é conhecido.

A bolha não nos protege apenas da realidade. Ela nos protege daquilo que, na realidade, ainda não sabemos ser.

Porque há um ponto em que a pergunta já não é apenas “por que sou assim?” Mas; O que farei quando aquilo que sei sobre mim já não puder responder por mim?

Referências
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
FORBES, Jorge (org.). Psicanálise: a clínica do Real. Barueri: Manole.

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